A Resposta

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Uma história de otimismo ambientada no Mississippi em 1962, durante a gestação do movimento dos direitos civis nos EUA. Eugenia Skeeter Phelan acabou de se graduar na faculdade e está ansiosa para tornar-se escritora, mas encontra a resistência da mãe, que quer vê-la casada. Porém, o único emprego que consegue é como colunista de dicas domésticas do jornal local. É assim que ela se aproxima de Aibellen, a empregada de uma de suas amigas. Em contanto com ela, Skeeter começa a se lembrar da negra que a criou e, aconselhada a escrever sobre o que a incomoda, tem uma ideia perigosa: escrever um livro em que empregadas domésticas negras relatam o seu relacionamento com patroas brancas. Mesmo com receio de prováveis retaliações, ela consegue a ajuda de Aibileen, empregada que já ajudou a criar 17 crianças brancas, mas chora a perda do próprio filho, e Minny, cozinheira de mão cheia que, por não levar desaforo para casa, já esteve por diversas vezes desempregada após bater boca com suas patroas. Uma história emocionante e estarrecedora onde a cor da pele das pessoas determina toda a sua vida. Um livro que, devido ao seu tema, chegou a ser recusado por quase sessenta editoras antes de ser publicado.

Recentemente ganhei de presente da Nica o livro A Resposta que o qual originou o filme Histórias Cruzadas. Ambas as mídias – seja o livro ou o filme – se tornaram especiais para mim por retratar o apartheid sofrido pela população negra norte americana e narrar as relações de trabalho – dando ênfase no doméstico – e nas políticas higienistas da época e a repressão policial e a criminalização dos negros. Ambos me marcaram muito, pois fizeram as histórias das minhas avós e mãe e de outras pessoas ao me redor me mostrarem que apesar de declararmos estarmos no século XXI ainda vivemos como se estivéssemos nos finais do XIX e início do XX.

Antes de começar apontar os detalhes da construção dos personagens, narrativa e outros detalhes que compõe o livro é necessário – sinto essa necessidade – de dizer como a autora obteve a ideia de escrever um livro que narrasse a relação de empregada doméstica negra e empregadoras brancas e a criação de seus filhos por suas criadas a partir da sua experiência pessoal. A autora quando pequena era próxima de Demetrie – a empregada doméstica da família que a qual criada o seu pai e agora representava uma imagem materna para a mesma. A reflexão sobre a importância de Demetrie em sua vida e as qualidades – na cozinha, seu corpo e carisma – encontram-se no livro, assim como os conflitos de sua vida pessoal. É importante enfatizar que a autora ela não quer falar sobre o que é ser uma mulher negra no Mississipi, a mesma compreende o seu local de mulher branca e empregadora. A ideia principal é transmitir que: Somos apenas duas pessoas. Não existem muitas coisas que nos separam assim, então por que vivemos separados? E a partir deste ponto nasce A Resposta.

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A Resposta passa em 1962, na cidade de Jackson no Mississipi. O mesmo narra a partir das concepções e experiências pessoais as distintas relações que se contém na mesma realidade. A autora apresenta através de três personagens majestosamente construídas: Aibileen, Minny e Skeeter.

Aibileen é a personagem que dá a voz inicial ao livro. A mesma é conhecida por ter criado uma quantidade de crianças brancas e ao vê-las atingir uma determinada idade deixa o trabalho com a sensação de ter cumprido o seu papel. A mesma não deseja se apegar aos pequenos. Porém, pela primeira vez Aibileen faz um diagnóstico sobre a relação de sua empregadora com sua filha. Como as mesmas não são próximas. Como sua mãe vive negligenciar suas necessidades para poder estar inserida na sociedade e o significado de estar grávida na relação mulher e homem branco. Esse diagnóstico é doloroso, mas o mesmo vem atona quando percebe que a pequena filha do casal não lhe enxerga como uma mulher negra, mas apenas como uma mulher, sua igual. Ao mesmo tempo a personagem contém suas próprias feridas sobre a maternidade. Principalmente quando se questiona sobre o abandono de seu próprio filho para colocar comida na mesa que vem a partir do cuidado de crianças que não são suas.

Minny é outra mulher negra conhecida por uma boa comida e o seu temperamento forte. Minny sempre soube que se tornaria uma empregada doméstica por sua mãe ser uma e a sua avó ser uma escrava doméstica. A aproximação da realidade é dolorosa. A mesma sempre sendo criada para servir e apesar de querer abandonar tudo, quando olha para os seus filhos e o seu marido acaba enxergando outras problemáticas.

Minny não é apegada as crianças como Aibileen. A mesma gosta de cozinhar e arrumar casas. Cozinhar é melhor, afinal ela nunca queima um frango frito, mas sua personalidade cria certos conflitos. Podemos dizer que Minny pode ser oprimida por sua cor – se pensarmos em uma pirâmide das relações sociais – mas a mesma não é submissa. Ela encontra mecanismos para demostrar suas frustrações com os seus empregados, apesar de isso ocasionar um histórico de desemprego. O que chama atenção em Minny é a sua relação com seus filhos – a quantidade de crianças e como a mesma lida com cada um deles – e a relação conflituosa com o marido. Minny é a representação da solidão da mulher negra.

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Skitter é a mulher branca que se interessa pelas relações trabalhistas. Toda sua curiosidade se origina a partir do questionamento: Onde está a mulher que me criou? Para onde foi? Sem respostas a mesma lançasse em investigações próprias. Skitter é a representação das crianças brancas criadas por mulheres negras e a busca de gratidão e reconhecimento pelo o que fazem em suas vidas – ao querer dar voz as mulheres negras – Skitter é lançada na marginalização, sendo excluída da sociedade.

A personagem de Skitter aborda muitas temáticas como: O que representa uma mulher branca para homens brancos? Qual o poder da mulher em legitimar a masculinidade de um homem? Quais são os quesitos de beleza que essas mulheres devem obedecer? Se a mesma tem cabelos crespos isso lembra mais negros é necessário alisar. Skitter é uma mulher independente e entra em conflitos constantes com a imposição social. Suas perguntas como: “Por que um homem pode e eu não?” Causam desconforto e ao mesmo tempo confrontam.

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Kathryn Stockett criou um livro fabuloso. Em muitos momentos parei a leitura pois desejava que a mesma não se acabasse e ao mesmo tempo, acabei fazendo pautas por causa do choro incessante em perceber que muitas das relações e questionamentos não mudaram. A tristeza profunda batia em minha porta.

Não posso esquecer de dar ênfase na abordagem da autora. A mesma soube compor personagens maravilhosos – podemos dizer que apesar de ter as vilãs, a mesmas se apresentam como sofredoras de uma imposição que não compreendem e ao mesmo tempo, soube dialogar historicamente. O livro ele tem uma construção histórica magnífica, mostrando os debates políticos, a resistência e organização dos negros contra a repressão policial, as figuras de Malcom X e Martin Luther King, suas prisões, o que isso significava para a comunidade negra e a visão dos brancos em querer que essas informações são não fossem propagadas. A autora soube lidar com tudo isso, mostrando um ambiente complexo. Ao mesmo tempo a autora enxerga as relações se baseando em cor, gênero e classe. Isso fez com que ela explorasse como são organizados os agrupamentos sociais e as justificativas para os comportamentos e mentalidade. A resposta acabou se tornando A Resposta para muitas coisas.

Publicado em: 02/nov/2016.
Páginas: 574
ISBN: 9788528614619
Skoob: Clique aqui para acessar
Categorizado como: 
Em: LivrosResenhas

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Sobre o autor

Debora Queiroz
Debora Queiroz

Cristã-protestante, futura historiadora e saxofonista.

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