Leitor Convidado – Ednelson Junior

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Olá Galerinha!!!!!!!!!!
Hoje trago para vocês mais um conto do nosso querido amigo e leitor, Ednelson Junior.
Ele escreveu o mesmo especialmente para a coluna aqui do blog! Demais, não?
Lembrando que se você, leitor, também quiser mostrar seu trabalho ou até exprimir sua opinião sobre determinado assunto, essa é a coluna, esse é o seu espaço também!
Gosto de pensar que o blog não é meu, mas nosso! =)

Mas, chega de blá blá blá e vamos ao Conto “A Lenda do Rio Rubro“!

O vento noturno balançava a copa das árvores, derrubando algumas folhas secas que se estendiam como um tapete no caminho do homem que circulava pela floresta. O caminhar era suave, contrastando com sua constituição avantajada de guerreiro. Normalmente a essa hora adentraria a mata para refrescar-se no rio que corria por aquelas terras, mas com a lua cheia como testemunha, estava ali para cumprir o seu dever como líder da vila. O monstro – que ceifou principalmente crianças, velhos e mulheres grávidas – precisava ser abatido. Ele deveria fazer isto sozinho, era uma questão de honra.

O bravo homem agachou-se e analisou o solo, tentando encontrar o rastro de seu alvo. Sem muita demora, viu uma trilha de pegadas que seguia rumo ao rio. O maldito, além de matar pessoas inocentes, ainda se atrevia a desfrutar das dádivas que eram protegidas de invasores.

Bilskirnir, pegando um punhado de terra com cada mão, ergueu-se, olhou para a imensa esfera alva colocada no firmamento no início dos tempos e cerrou os punhos. Seu sangue começava a ferver, lutara em mais batalhas do que o número de árvores por quilômetros, mas a profanação de seu lar por algo imundo jamais poderia ser tolerada. Sua ira só fazia crescer, como a barriga de uma gestante até o momento da concepção, porém não seria a vida que brotaria e sim a morte.

Até avistar o rio, Bilskirnir acompanhou uma trilha de animais mortos, fezes e urina, além de cortes em algumas árvores. As armas das quais o seu aguardado oponente dispunha eram sem dúvida alguma poderosas, visto que alguns cortes chegavam à profundidade de quase cinco centímetros.

—Interessante sua força, será um desafio à minha altura – pensou o orgulhoso guerreiro com um sorriso que só quem viveu a adrenalina da guerra poderia compreender.

Ainda escondido, Bilskirnir observou a criatura que tinha pouco mais de dois metros de altura e uma pelugem marrom, assim como os ursos, do pescoço para baixo. Ela pegou um pouco de água com as mãos em forma de concha e despejou sobre a boca e face. O rosto e a cabeça eram parcialmente cobertos por um pelo cor de fogo. Os olhos pareciam banhados em sangue, isso o lembrava alguns maníacos com quem encontrou em campos de batalha. Se a memória não falhava, eram chamados de Berserkers.

Depois de um tempo, aparentemente admirando os astros, o monstro recolheu uma enorme lâmina que estava cravada no solo ao seu lado.

Bilskirnir franziu a testa, almejando lembrar o nome daquilo.

Espada montante, é isso! – recordou-se, fascinado pelo brilho do metal trabalhado, indubitavelmente, pelas mãos de um mestre ferreiro. Ainda assim, preferia as suas próprias armas.

—Pare de agir como os súditos de Loki da mais vil categoria, filho de Fenrir, revele-se – o Berserker disse, virando-se em sua direção e colocando a espada em riste – Por Odin, bardos me disseram que esta era uma vila formada integralmente por “uivadores” – comentou em tom de deboche – e que o líder era excepcionalmente poderoso. Pelo visto, todos os vermes que matei serviram para atraí-lo. Tua cabeça será o meu maior troféu.

O homem-lobo de quase três metros de altura saiu da tocaia, deixando visível cada centímetro de seu corpo escultural, mas que não inspirava fascínio e sim medo.

—Ora, ora, ora… – apesar de estar em sua forma intermediária, ainda bípede, conseguia articular palavras com perfeição – Um servo de Odin veio para me desafiar! – gargalhou, sendo que o som era uma espécie de uivo misturado ao riso humano.

—Blasfema contra Odin, o grande deus personificação da força e sabedoria!? Aquele que caminha entre os humanos de maior valor! – o vermelho nos olhos do Berserker ficava mais intenso.

—Pare de falar asneiras, qualquer deus que permita a existência de uma peste como os humanos merece morrer! Eu trarei o Ragnarök, o temido crepúsculo dos deuses! – falou com convicção e eriçando os seus pelos cinzas como as nuvens que anunciam uma tempestade.

—Pode usar toda a sua força, pois eu sou Hœnir! – declarou com todo o vigor de seus pulmões. Começou a salivar descontroladamente, efeito de seu estado de fúria.

Bilskirnir ficou de quatro e começou a correr em círculos ao redor do seu inimigo, querendo pegá-lo em uma brecha. Isso não era muito difícil, tendo em consideração que os guerreiros da fúria abdicavam de todo o senso de proteção para manterem o foco em apenas em destruir.

O gigantesco lobo cinza abriu a sua bocarra em um ângulo de quase noventa graus, deixando ainda mais à mostra suas presas afiadíssimas e lançou-se contra o adversário.

Hœnir apenas urrava, mas não saiu um centímetro de sua posição.

O lobo cravou as presas no ombro esquerdo do Berserker, mas também sentiu a carne ser trespassada próxima ao coração. Por muito pouco não selou o seu destino ainda mais cedo.

Como guerreiros que conheciam apenas o calor da luta, nenhuma dos dois emitiu um grito de dor. Muito pelo contrário, a fera cravou os dentes ainda mais fundo e o Berserker começou a mexer a lâmina, causando ainda mais ferimentos internos em Bilskirnir. Indubitavelmente, o ódio os cegou.

O grande lobo agora cravou as garras nas costas do oponente, como um abraço que oferta dor lancinante ao invés de conforto. Em retribuição, o devoto de Odin imprimiu com os seus dentes amarelados várias marcas no couro duro do filho de Fenrir. O sangue dos dois escorria, deslizando pelo terreno íngreme até o rio.

Seus corpos enfriavam, estavam flertando com a morte, mas nenhum queria abrir mão da vitória.

Aos poucos foram se aproximando do solo, ficando ajoelhados e sustentados dessa forma pelo corpo um do outro. Os últimos filetes de sangue diziam adeus, seus olhos se fecharam. O rio ficou rubro e uma fina chuva começou.

**

—Foi assim, meu netinho, – disse a anciã indo para frente e para trás em sua cadeira de balanço – que o rio do qual retiramos a água para regar as nossas plantações ficou vermelho há muitos séculos.

O menino franzino continuava sentado no chão, atento ao que a avó contava.

—Alguns homens da cidade grande dizem que é uma tal de Maré vermelha, mas isso não passa de conversa de gente que não tem conhecimento de verdade – apontou para a própria cabeça para reforçar as palavras – Agora, você pode ir lá fora brincar, mas não demore. Já, já o seu pai e sua mãe chegam com o jantar.

—Tá bom, vovó – disse empolgado o garoto que saiu correndo pela porta.

—Essa juventude… – a ancião experimentava nostalgia.

Ela olhou pela única janela da cabana e viu a lua surgindo aos poucos, como uma donzela que se despe para o marido na noite de núpcias. Ela estava cheia.

—A deusa está prenha – os seus lábios formaram um sorriso terno, suas unhas ficavam maiores e o corpo velho se remodelava sob influências desconhecidas dos chamados “homens de ciência”.

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Sou um dos membros do blog Leitor Cabuloso“, faço parte do projeto “Um Ano de Medo” e estudo Letras – Espanhol na UFAL, além de atravessar portais para outros mundos e fazer piadas sem graça, mas que sempre conseguem fazer alguém rir. Comecei a minha fascinação pelo terror e suspense ainda pequeno, aos cinco anos de idade. Escrevo como uma forma de refletir sobre questões que acho pertinentes, além de ser uma maneira de aliviar as tensões dessa dimensão a que chamamos “mente”. Apesar de amar histórias macabras, sou um romântico assumido que acredita em amor verdadeiro…apesar de ainda não ter encontrado o seu.

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