Leitora Convidada – Daiane Jardim

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Olá Galerinha!!!
Rascunhando de hoje é muito especial – não que os demais também não sejam, calma!!! -, pois a convidada é uma pessoa que eu admiro demais e que se tornou uma grande amiga ao longo desses um ano e meio de blogosfera. Tanto, mas tanto, que nos consideramos gêmeas de coração! hehehe
Mas, então, quem é essa pessoinha?

É a Daiane, do blog No Universo da Literatura!!!!

daiane

Além de blogueira, ela também tem se mostrado uma excelente escritora. E, depois de conversarmos, ela aceitou meu convite para participar dessa coluna mais que querida pra mim…
E, não bastasse, ela o fará de maneira especial! Uma linda, não?! *-*

Mas, Nica, como assim?
Então, a partir de agora, vocês acompanharão uma série de contos da nossa querida Dai… alguns serão separados por parte – por conta da extensão -, outros serão postados inteiros… enfim, se preparem para contos super fofos e emocionantes!

Todos prontos???

Há um turbilhão de emoções nesse momento dentro de mim, sinto o peso das consequências, das escolhas erradas e certas que fiz pesarem em meus ombros. As lágrimas descem geladas, não há como segurá-las, são palavras que não conseguem ser ditas, somente pensadas e sentidas.

Sinto o vento no rosto, sei que vou recomeçar, mas nesse momento preciso sentir, repensar e extravasar esse sentimento que toma conta de mim. Continuo andando rumo ao único lugar que me sinto segura. Com passos apressados e cabelos soltos sinto o ar gélido ao meu redor daquela tarde de inverno.

Embaixo dos braços levo meu livro de música, e mentalmente revivo as primeiras horas da manhã.

“ – Você sabe que ninguém gosta de você aqui não é mesmo Diana? Todo mundo te odeia nessa escola! Esquisita!

Não consegui responder, palavras ficaram presas na garganta. Era medo, só medo, e depois uma dor. Alguém chutou minha perna, não tive forças para levantar meu olhar e ver qual deles havia feito aquilo comigo. Só havia dor.

E logo após um barulho, minha pasta com meu livro de música foram praticamente chutados em direção à parede, e aquilo me doeu mais ainda. Vi pés se afastando, eu fiquei ali, com lágrimas silenciosas pelo meu rosto, com vergonha.

– Venha, vou te ajudar. Vi o que aquelas meninas fizeram, elas não ficaram impunes. Dê-me sua mão, vou ajuda-la a levantar”

A vergonha e o medo ainda se alojam em minha mente, tento esquecer decorando as notas musicais de uma canção que eu tanto gostava de tocar.

Chego à biblioteca e logo sinto o cheirinho de livro velho, a tarde não há quase ninguém, meus passos ecoam pelo local, dois funcionários me olham e rapidamente coro, voltando meu olhar para meus sapatos já velhos e gastos. Rapidamente vou até a seção de livros, passo a ponta dos meus dedos em um por um.

Não que eu nunca tivesse passado por ali antes, na verdade passava todos os dias, havia decorado quase todos os títulos que havia naquela biblioteca. Enquanto passava os dedos e lia cada lombada, um em especial me chama a atenção e o retiro passando a mão cuidadosamente pela sua capa já gasta. O abro lentamente e vejo suas folhas já envelhecidas. A sinopse me chama a atenção, parece ser um suspense, mas também contém um romance mais adulto. Fico um pouco preocupada, e resolvo devolvê-lo.

Não sei o que escolher, então resolvo levar mais um de Machado de Assis para ler, “A mão e a luva”, passo por todos os livros novamente e só depois me dirijo ao balcão onde fica um senhor já velhinho. Entrego o livro e digo meu cadastro, ele gentilmente me devolve o exemplar.

Novamente caminho pela biblioteca, ali me sinto em paz, em casa, é como se nada pudesse me atingir, pois aqui estou protegida. Por um instante penso quantas palavras será que há ali dentro, quantos sonhos? Quantas histórias? Queria ler todos, saber de todos, queria sugar essa fonte inesgotável de imaginação.

Nem me lembro mais da tristeza que sentira, era incrível como aquele lugar exercia um poder sobre mim, parecia que todas as preocupações sumiam. Fui até o piano que ficava próximo a porta de entrada da biblioteca, coloquei meu livro ao lado, e abri meu livro de música.

Nota por nota, lentamente, o som, ele me tocava.  Não sei como explicar o que sentia, era como uma magia operando em mim. Era uma conexão entre mim e algo maior que não consigo explicar, era como se fosse só ela e minha alma. Lentamente a melodia ecoava pela biblioteca. Passei duas horas ali dentro, em comunhão com minhas duas paixões, música e literatura.

Fecho meu livro, e deslizo mais uma vez meus dedos pelas teclas. Um suspiro escapa de meus lábios. Pego meu livro e saio pela porta da frente, chegando quase próxima à esquina percebo que estou com apenas um livro, esqueci o exemplar do Machado de Assis no banco em que me sentei para tocar o piano. Como sou cabeça de vento às vezes! Como pude esquecer o livro assim?

Entrando novamente na biblioteca, gelei, o livro não estava no banco, comecei a andar rapidamente, talvez alguém o tivesse entregado para o senhor velhinho, vou passando novamente pelas estantes, e paro. Era ele quem estava ali, meu coração traiçoeiro bateu rápido novamente, mas minha mente no mesmo momento tratou de me lembrar da angústia, da raiva, e esse misto de emoções mais uma vez entra em conflito. Mas havia algo ali presente e tenho certeza que ele percebeu em meu olhar: mágoa.

Aqueles olhos verdes que tantas vezes permaneceram em meus sonhos, estavam ali bem na minha frente. Seu rosto estava sério, e embora sua expressão fosse fria, havia algo mais ali, talvez arrependimento ou ainda pior, dó.

– Oi.

– Oi – Não sei como consegui responder, mas a palavra saiu automática de meus lábios.

– Acho que você esqueceu isso – Breno me mostrou o livro, rapidamente o peguei, e virei as costas.

– Obrigada – Não sei se ele me ouviu ou não, mas tinha que sair da dali. Já sofri demais por hoje, ali era meu santuário, ele não deveria estar ali, não deveria falar comigo.

Coloquei o livro na pasta e sai rapidamente da biblioteca, nem percebi que uma chuva triste começava a cair. Fui caminhando o mais rápido que pude, a chuva parecia aumentar conforme eu apressava mais meu passo. Coloquei a pasta dentro da minha blusa e segui correndo pelas ruas de Itapeva.

Meu cabelo já começou a ficar praticamente ensopado, e ao lembrar-me de Breno, me entreguei às lágrimas novamente. Não sabia mais se o que escorria pelo meu rosto eram a chuva ou minhas lágrimas. Mas tenho certeza que a tempestade que havia dentro de mim, era maior do que aquela que havia lá fora.

Ouço passos atrás de mim, e alguém me chamar. Viro-me e ele está ali novamente, debaixo de um guarda-chuva vermelho. Seu cabelo loiro impecável.

– Hey, vamos juntos, assim dividimos o guarda-chuva. Tem mais uns 15 minutos ainda de caminhada.

Nós dois juntos, debaixo daquele guarda-chuva mais uma vez? Não, eu não ia conseguir suportar. Olhei para seus olhos que agora pareciam tristes, e a única coisa que consegui fazer é abaixar os meus  ao chão.

Dessa vez corri ainda mais rápido. O que ele havia me feito, não se faz a ninguém. Será que ele tinha noção? Será que sabia? Provavelmente não.  De uma forma ou de outra o destino sempre lançava suas armadilhas em nossos caminhos. E dessa vez não havia sido diferente.

Minhas pernas doíam, e então voltei a caminhar, percebi que a chuva havia diminuído e o sol lançava sua luz alaranjada já no céu. Ao levantar meus olhos ao céu, vi um lindo arco-íris. Um leve sorriso ousou aparecer em meus lábios. Respirei profundamente, e deixei o passado no lugar que ele deveria ficar, no passado.

Abri o portão de casa, e prometi a mim mesma que amanhã seria diferente, em minha mente desejei com fé, que meus sonhos dessa noite fossem escuros, e não iluminados por lindos olhos verdes.

 

*Conto baseado em fatos reais

*Pode ser que tenha continuação

 

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