Os Romantizadores

Como se tudo na vida não fosse dramático suficiente agora precisamos adicionar um toque de romance. Feche as cortinas do palco da vida e espere o diretor gritar novamente: Câmera, luzes e ação, pronto, agora a cortina se abre, mas além do drama e da dor, tudo agora é suavizado com o toque do romance.

Romance? Sim. Sério? Estou falando! Nós somos romantizadores natos e produzimos isso a partir de nossas situações do cotidiano. Tipo quais? Quer exemplo? Podemos começar pelos ciúmes que ao invés de ser encarado muitas vezes como um cárcere dentro do relacionamento ganha designo de cuidado, mesmo quando outrora ele excede o “cuidado”. Podemos falar dos relacionamentos abusivos que constantemente te faz questionar sua sanidade mental, mas tudo bem, relacionamento assim valem a pena e pela trigésima vez você vai se colocar diante do espelho para pronunciar: Ele me ama. Mas, no fundo fica a questão: Ele me ama mesmo? Então por que ele me constrangeu?

Somos capazes de romancear relacionamento nos quais meninas – crianças, pré-adolescentes – se envolvem com homens mais velhos, mas tudo bem, podemos aplicar o discurso do amor livre ou podemos escrever um livro igual Lolitta e viver o êxtase da romantização. Podemos viver o absurdo da romantização chegando ao estupro, não apenas o desqualificando na vida real como se fosse uma fantasia sexual, mas nas novelas e seriados que unem o discurso de violência para o surgimento de uma mulher forte. Analise tudo o que acabei de falar e se questione: O que tenho romantizado em minha vida? O que tenho consumido – seriados, novelas, livros, fanfic e músicas – pelas quais expressam uma violência que fora suavizada pelo romance?

O incrível – na verdade me sinto perplexa – o quanto apenas nós, mulheres, somos colocadas em um papel de romantização. Somos consumidoras e ao mesmo tempo protagonista de todos esses fatos. Vivemos relacionamentos abusivos, sofremos com os ciúmes, se despertamos nossa sexualidade é sinônimo de sedução o que pode servir de justificativa para um estupro. Somos sempre culpadas e no final tudo ainda justificam com a seguinte frase: Vocês mulheres amam demais, gostam de vivenciar um romance. É realmente nós ou a sociedade machista que nos pressiona a deglutir tudo isso como um romance para assistir na sessão da tarde? Você vê que o machismo vence quando achamos que tudo isso é normal. Sinto dizer, não é normal, isto é viver em um cárcere e precisamos nos libertar.

Não romantize uma violência. Violência não é romance, ela continua sendo violência. Não existe fantasia sexual, realização afetiva ou cuidado quando envolve violência, mas sim o cárcere no qual a sua voz vai ser abafada e o romance não vai descrevê-la.

Sobre o autor

Debora Queiroz
Debora Queiroz

Cristã-protestante, futura historiadora e saxofonista.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Você pode usar esses marcadores HTML e seus atributos: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

Copyright © 2011-2015. Desenvolvido por String - Tecnologia e Web.