Reféns do Livro

Anna sempre me questionou: Por que insistir em uma leitura na qual você não está se agarrando? A vida é curta demais para se perder com histórias que não mexem com o seu emocional.

Ao longo da minha pequena trajetória literária, me deparei apenas com poucas histórias as quais decidi abandonar sem descobrir o seu desfecho, e afirmo: o sentimento não é bom. Apesar da narrativa arrastada, personagens chatos e diálogos monótonos, sempre insisti na leitura por acreditar na melhora do relato e por esperar de toda a história uma lição de moral ou uma ideia que o autor deseja nos apresentar. Ao abandonar antes dos agradecimentos finais é como se falasse ao autor: “Meu querido (a), você não serve para escrever“; mas, quem sou eu na fila do pão para direcionar tal afirmação para alguém?

Pode parecer contraditório da minha parte pois, afinal, escrevo resenhas, aponto elementos os quais o autor pode e deve melhorar para suas próximas narrativas, mas nunca digo que o mesmo deva abandonar esta carreira, pois foi necessário coragem e fé para trilhar este caminho.

A primeira vez em que abandonei uma história foi aos meus 13 anos, onde comecei a ler um autor angolano e apesar dos avisos da bibliotecária sobre ser um tema avançado para minha idade, acabei insistindo na leitura e por fim abandonei, até hoje não me lembro do que se tratava o livro, mas me recordo perfeitamente da pergunta da funcionária ao perceber a página em que parei e eu lhe responder: Eu não entendo. E agora, com minha idade “avançada” percebo que eu entendo o porquê de uma leitura não fluir.

Pode ser gosto, gênero, idade, momento certo de leitura, público alvo do livro… concluí que todos esses elementos compõem as situações adversas, que nos levam a revirar os olhos com os diálogos, bufar com a inocência e falta de inteligência dos personagens, sem falar nos pré-conceitos que são tão exaltados em determinadas situações que em um momento vai fazer com que nós leitores paremos a leitura e venhamos a nos questionar quando o autor vai desconstruir tal argumento… o pior é quando a resposta vem acompanhada de uma decepção antes de chegar à última página.

Só comecei a refletir sobre o assunto quando iniciei 360 dias de Sucessos da Thalita Rebouças. Apesar de me declarar velha alguns parágrafos acima ainda sou jovem e os meus primeiros livros foram os da Thalita. Cresci pedindo aos meus pais a série Fala Sério completa da autora, que esteve presente em grande parte das discussões em meus ciclos de amizade na infância, e também a série Ela Disse, Ele disse que foi utilizada como meio didático em minha educação e estímulo de leitura para os meus companheiros de sala. Tudo isso fomentou o meu desejo por seu novo lançamento, mas em nenhum momento parei para refletir: Não sou mais o seu público alvo.

360 dias de Sucessos fala sobre banda, fama, intenções amorosas e, após algumas resenhas exaltando o amadurecimento da autora, cheguei a me animar para continuar a leitura… Da página 45 estacionei até a 147 e por ali fiquei desde então. =( Pensei: Não estou motivada, você acabou de ler Foucault quem vai cair de cabeça em outro livro? O pior é que consegui e em menos de 24 horas terminei um livro de 300 páginas, mas o da Thalita continuou na minha mesa me acusando e proclamando: Como ousas me largar sozinho? Sou feito para ser lido! Mas quando o pego, a minha mente se recorda dos personagens, das suas falas, das suas idades, suas visões tão pequenas de mundo e começo a me questionar sobre quantos mais pensam dessa determinada forma. E, refletindo sobre tudo isso acabei aqui, sentada em frente do computador, pensando sobre a culpa que sinto com relação ao abandono das minhas leituras.

Eu não deveria me culpar tanto e deixo esse conselho para você: Não se sinta mal por abandonar livros, isso acontece, talvez na sua estante tenha um outro autor esperando a oportunidade de ter o seu livro aberto e lhe narrar um outro universo fantástico. E talvez você se questione: O que eu faço com o anterior? Ou espera o momento certo para a leitura ou faça como eu: procure leitores que sejam capazes de interagir e cair 100% na história do autor. O livro da Thalita para mim é uma porta fantástica para oferecer a leitores mais jovens algo próximo a sua realidade e descobrir a partir de diálogos o que os personagens falam, se os defendem e desconstruir determinados pensamentos, criando aos poucos a necessidade dos mesmos fazerem sozinhos com os próximos livros que vão surgir ao longo de sua vida.

Analisando minha estante (em especial agora, pois estou no momento de troca e doação de livros) percebo quantas histórias abri mão de conhecer e quantas terminei por me sentir culpada. Cheguei à conclusão que a leitura é como um relacionamento, ou seja, o mesmo precisa ser capaz de conversar com você, criar um laço e não lhe transformar em uma refém onde você se torna obrigada à leitura. Se isso acontecer, quero sugerir que: Corre bino, isso é cilada!

Sobre o autor

Debora Queiroz
Debora Queiroz

Cristã-protestante, futura historiadora e saxofonista.

4 comentários

Deixe um comentário =)
  • Cara…eu fico com uma sensação horrorosa se não termino o livro. Por isso eu me forço mesmo a terminar. Depois eu taco o livro na parede pra descontar minha raiva e passo adiante esquecendo ele em qualquer lugar ou doando, mas eu preciso terminar.
    Eu simplesmente não consigo ficar sem saber o final de uma história (será que é porque sou jornalista, ou eu escolhi essa profissão por causa disso? Good question…)

    Por isso tento ser criteriosa sobre o que vou começar a ler, principalmente se for uma série. Recentemente eu comecei a ler “Em busca de herois” da Morgan Rice em ebook porque tipo…tava de graça na Amazon.
    Não foi tuuuuudoooo aquilo. Foi legal. No final, descobri que é uma série de 13 livros!!!!! 13!!!!!
    Como eu faço agora? Vou ter que continuar….mesmo não tendo gostado muito. Ou seja, estou refém do livro, como você falou.
    =/

    • Ah, não consigo ser assim! Se simplesmente não me adicionou em nada acabo abandonando, mesmo quando surge comentários positivos no final. Mas foi processo chegar neste resultado, pois antigamente era igual você e me prendia em determinada história me limitando conhecer outras que as quais me chamavam muito mais atenção.

  • Debora, concordo totalmente com seu ponto de vista.
    Não podemos nos tornar reféns de um livro ou na obrigação de lê-lo.
    Acredito que os livros foram feitos para nos dar prazer, nos envolver com cada parte dele e se isso não acontecer é porque ou não há afinidade ou não é o momento.
    Abandonei poucos livros, mas me incomoda mesmo assim, porém não tenho nenhuma pretensão de dar uma chance para algum deles no momento.

  • Eu também sou do tipo que pega um livo e vai até o fim, mesmo que esteja “sofrendo” com a leitura. Até hoje, só abandonei um: “O Segredo” de Rhonda Byrnes, um auto-ajuda. Acho que, depois dessa experiência, fiquei com uma birrinha com livros do gênero, então nem me arrisco a começar qualquer outro que tenha essa mesma vibe. Concordo com tudo o que você falou em relação aos múltiplos elementos que nos levem a não gostar de determinados livros, e creio que, se os leitores se basearem neles, dificilmente iriam desistir das leituras.
    E, como você está no “momento de troca e doação de livros”, digo que estou disponível, tá?!?! kkkkk

    @_Dom_Dom

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