Sangue Quente

Book

Sangue Quente - R é um jovem vivendo uma crise existencial - ele é um zumbi. Perambula por uma América destruída pela guerra, colapso social e a fome voraz de seus companheiros mortos-vivos, mas ele busca mais do que sangue e cérebros. Ele consegue pronunciar apenas algumas sílabas, mas ele é profundo, cheio de pensamentos e saudade. Não tem recordações, nem identidade, nem pulso, mas ele tem sonhos.

Imaginem um cenário caótico, um mundo destruído, quase sem vida. Agora somem a isso zumbis famintos e humanos se concentrando em um estádio para sobreviver. Esse é o plot de Sangue Quente, o livro maravilhoso de Isaac Marion, que vai muito além desse novo mundo apocalíptico.

E é em meio a esse ambiente nada agradável, diga-se de passagem, que conheceremos um jovem zumbi ao revés. Sim, R é diferente dos outros de sua “espécie”. Ainda que não se lembre muito de sua vida como humano e nem de seu nome verdadeiro; ele tem algo de diferente, algo de singular, que o faz sensível mesmo quando está dilacerando as partes de uma pessoa ou comendo (eca!) seu cérebro. Um morto-vivo com sentimentos, eu diria.

“Dou de ombros, pensando que apesar de ser um gesto banalizado ao extremo, funciona em alguns momentos. Talvez seja uma linguagem necessária em um mundo sem palavras como o nosso.” – R –

Como os demais zumbis, R não consegue se comunicar muito bem, sua eloquência é bastante prejudicada, principalmente no começo do livro, fazendo-o parecer um bebê que está aprendendo a falar. Se falta articulação na hora de falar, o mesmo não acontece em sua mente. Ele lamenta profundamente toda vez que necessita consumir uma vida humana para sanar sua fome. No entanto, ao mesmo tempo que isso o causa repulsa, é a única maneira que R tem de sentir emoções, reviver sentimentos, momentos de cor e vida.

“Ela fica me encarando. Seus lábios estão comprimidos e pálidos. Aponto para ela, para minha boca e depois para os meus dentes tortos e ensanguentados. Faço que não com a cabeça. Ela se encolhe para perto da janela. Um grito de terror começa a aparecer na garganta dela. Isso não está dando certo.– Segura – falo para ela, soltando um suspiro. – Manter… você segura.”

Essa foi uma das coisas que mais me chamou a atenção nesse mundo repleto de caos e mortos-vivos: o autor criou uma personagem zumbi totalmente diferente do estereótipo desse sub-gênero de literatura sobrenatural. Sem falar que, normalmente, os livros nos trazem o lado dos humanos, a carnificina e a desordem que se criam; e Isaac nos mostrou o outro lado da moeda, o lado dos zumbis.

R começa a ganhar ainda mais destaque e “se desenvolver” quando, em sua última viagem de caça, ele e seus colegas encontram um grupo de jovens humanos. Porém, ao morder um deles, nosso querido zumbi experimenta a vida deste de maneira tão vívida e real, que ele é capaz de reviver memórias e se apaixonar pela bela garota, Julie, que aparece nos pensamentos de Perry – o jovem cujo cérebro ele começara a comer.

O fofíssimo – sim, porque é impossível não se encantar por esse zumbi sentimental – R se apaixona pela menina e acaba por salvá-la do bando de zumbis famintos e urgentes por mais carne humana. Outra parte que achei lindinha e sensível. A troca de olhares, o medo estampado no rosto dela, a consciência de algo diferente e totalmente novo “pulsando” em seu peito… A maneira como o autor foi desenhando a história entre eles foi perfeita, no tempo perfeito, cheia de surpresas e emoções jamais sentidas antes, por ambos.

Impossível não se apaixonar por R e seu modo observador de ser, sua eloquência básica e esforçada, sua vontade de viver (ainda que venha a soar um tanto quanto estranho para alguns de vocês). A interação entre um corpo em decomposição, ainda com resquícios de sentimentos, se conectando às memórias de Perry.

Mas Julie não deixa de ser encantadora também. Ela possui um brilho e uma vivacidade que trazem um quê de esperança e vida a um mundo já devastado, triste. É sua força por viver que atrai R e os leitores.

“Porque gosto de você Sr. Zumbi. – Ela limpa o sangue com a mão, olha pra ele e então passa em meu pescoço. – Pronto. Agora estamos quites.” – Julie –

Vale a pena mencionar mais dois pontos positivos da obra. Primeiro, a narrativa do livro é daquelas bem gostosas de se ler, sabe? Não queria largar de jeito algum. Uma leitura rápida, fluída, leve e que te prende, te instiga, te fascina. Em segundo, a Editora LeYa fez um excelente trabalho de diagramação, colocando desenhos no início dos capítulos ou nas viradas de perspectiva dentro de uma mesma parte.

Sangue Quente nos fala de esperança e amor em um mundo onde se esperava o pior, onde se esperava pela morte e pela devastação da raça humana. Um romance sobrenatural regado a reviravoltas, reflexões – um tanto quanto filosóficas de nosso querido morto-vivo -, e questões existenciais sobre a vida humana, sobre os sonhos e a realidade. R e Julie aprendem um com o outro, entendendo que ninguém é de todo ruim e que pessoas – ou zumbis – podem mudar sim!

Super recomendado!

Publicado em: 22/mar/2013.
Livro enviado como cortesia.
Título original: Warm Bodies
Páginas: 256
ISBN: 9788580440331
Skoob: Clique aqui para acessar
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Em: LivrosResenhas

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Sobre o autor

Mônica Quintelas
Mônica Quintelas

Nica tem 32 anos, é mãe do Davi <3, empresária, esposa e blogueira por paixão. Nasceu na Cidade Maravilhosa, no bairro das Laranjeiras. É viciada em café e livros. Tem quase um zoológico em casa: a dash Amora e o pastor alemão Hunter, as calopsitas Bob e Belinha, e um aquário marinho - o hobby do maridão. Adora ouvir música, dançar, cozinhar, sair com os amigos, e assistir vídeos no Youtube! Acredita em Deus e seu maior sonho hoje é levar o Davi à terra natal de seus avós, Portugal.

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