Transição Capilar e Autoimagem

Faz tanto tempo que desejo me sentar e conversar com vocês sobre representatividade, sonoridade e acima de tudo empoderamento. São assuntos que estão presente e envolvem o universo literário, cinematográfico que o qual é retratado no Drafts, porém, o assunto é importante para vida real, pois isso significa se relacionar de modo diferente com você e com os outros. Ouvir e entender as singularidades uns dos outros. E por isso quero assumir um compromisso de apresentar novas perspectivas de assuntos que estão escondidos ou são citados e passam despercebidos ou que até mesmo são apresentados de modo negativo, quando na verdade eles são essenciais.

Nada melhor do que aborda a temática através de mim. Falar sobre questões de representatividade e empoderamento que começaram no início do processo da minha transição capilar em 2014 e modificou a minha relação comigo mesma e a perspectiva da minha autoimagem. A transição capilar para uns pode ser visto como modismo – é até doloroso tratar dessa forma superficial, pois a transição capilar é o momento de reafirmação de quem você é – e para outros é o ponto inicial do empoderamento – a estética é importante e grande aliada. Isso vai ser evidente quando me ouvirem falar sobre o processo de alisamento e transição – ou de outras pessoas.

Sempre fui uma criança de cabelos volumosos. A minha avó cuidava da melhor forma possível fazendo tranças, criando penteados que me fizesse sentir bem, porém, sempre esses presos. NUNCA SOLTOS. Cabelos crespos não foram feitos para ficar soltos – era desse modo que me sentia na escola ao me comparar com minhas amigas. Aos 7 anos de idade ganhei de presente o relaxamento do Netinho. Era feito para crianças. Ainda me lembro de sentar no braço do sofá na casa da minha tia e sentir ela passando na minha cabeça. A ardência e o cheiram ficaram marcados, assim como o momento que olhei no espelho e pensei: Uau! O meu volume sumiu. Mas o relaxamento não é suficiente pois o cabelo não estava liso. Sem volume, mas o aspecto do cabelo crespo permanecia.

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Nesse processo de relaxamento dos cabelos e fazer comparações com minhas amigas, ouvi e fui usada como motivo de piada na escola. Meu nariz, orelha e a cor da pele eram sempre apontados – era a única negra da minha sala. Por um longo período não queria sair de casa. Usava roupas e mangas, não pegava sol, colava esparadrapos na minha orelhava e usava pregadores no nariz. Foi um período que muito me machuquei para poder me sentir branca! Ainda lembro de uma vez que a minha sala se reuniu para fazer piada de mim e a única amiga que tinha sala agrediu um dos meninos por causa dos comentários. A lembrança é fresca de chegar em casa e dizer minha mãe que odiava ser negra e queria ser branca como o meu pai! Quando penso nisso vejo o quanto a minha mãe foi paciente e disfarçava em estar machucada, pois ela constantemente dizia que eu era inteligente, bonita, que não deveria ter vergonha de mim.

Um dos pontos que muito melhorou minha relação comigo no ensino fundamental foi quando minha irmã entrou na escola e a mesma fez amizade com uma outra criança negra. Sua mãe constantemente nos fazia penteados e dizia que deveríamos amar nossas raízes. Sou tão grata por ela e tão presente na minha vida até hoje!

Aos 12 anos de idade fiz minha primeira progressiva. O valor era alto, mas meu pai se esforçou tanto para pagar! A imagem dos meus cabelos voando, flutuando, meus dedos deslizando no cabelo. Eu me sentia maravilhosa, mesmo que isso significasse passar 3 horas dentro de um banheiro escovando e pranchando o meu cabelo. Eu me sentia maravilhosa mesmo que isso significasse me negar entrar na piscina. A realidade que na minha mente me sentia como se tivesse eliminado o maior defeito em mim! Porém as pessoas sabiam a verdade sobre o meu cabelo. Naquela época não compreendia que não importa o quanto tenta esconder quem você é, eles sempre sabem a verdade. Os meus cabelos lisos permaneceram até finais de 2013 e foi quando adentrei no universo da transição capilar sem saber.

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2013 fora um período conflituoso na minha casa por questões financeiras. Não havia dinheiro para absolutamente nada que fosse supérfluo. Tudo se resumia coisas específicas e para isso foi necessário abrir mão do meu cabelo. Ainda lembro de dizer ao meu pai que o mesmo não me amava, pois abriria mão daquilo que me fazia sentir bonita. O problema que não enxergava que a cada mês gastava-se R$ 60,00 para relaxar minha raiz e a cada três meses R$ 220,00 com a progressiva. Lembro de chorar, espernear e quando chegou próximo do natal acabei ganhando de presente. 2014 os mesmos fatores ocorreram, mas desta vez meu pai não abriu mão e precisei procurar meios de como lidar com as duas texturas de cabelo. Não sabia que estava transição. Tudo o que eu queria eram meios de conseguir prender o cabelo em um rabo de cavalo sem ficar perceptível as diferenças de textura e volume, mas isso era impossível!

Por procurar constantemente penteados acabei conhecendo a Rayza Nicácio – que falava na época sobre cabelos cacheados – e outros canais gringos que ensinavam a lidar com a textura e a partir daí comecei compreender que o meu cabelo crescendo e a permanência do mesmo significava estar em transição. Aquilo inicialmente não foi felicidade, mas a partir do momento que você começa ver mulheres que tem o mesmo cabelo e tonalidade de pele as teias da representatividade acabam lhe alcançando. Não se torna errado ter um cabelo crespo, torna-se errado aquele que me fez me sentir inferior por toda uma vida.

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A minha transição capilar verdadeira começou em setembro de 2014 quando fui visitar o Cais do Valongo e a Pedra do Sal – a região conhecida como A Pequena África do século XIX. Nas paredes estavam estampado: Crespo é lindo. Feio é o seu preconceito. Aquilo tanto me contemplou e ver um grafite em um crespo tão grande me fez pensar: É isso o que quero ser! Mas a transição é fácil! É um momento no qual você cresce de dentro para fora. Ouvi-se tantas críticas! Pessoas anunciam: Seu cabelo era mais bonito liso do que está agora / Para com isso! Isso é ridículo, parece cabelo de bombril! Ouvi tantas coisas! Pessoas da minha família diziam que poderiam me dar dinheiro para alisar se precisasse. Pessoas na rua apontavam e pessoas que achei ser meus amigos evitavam sair comigo. Foi uma situação que me fez analisar e ver: Eu me amo de verdade? Essas pessoas me amam de verdade? E comecei a me impor! Não de força agressiva, mas com meu próprio cabelo e modo de ver. Quanto mais você se ama, mas isso incomoda!

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Em março de 2015 tomei a decisão final: Fazer o BC – Big Chop. Durante muito tempo procurei salões na região que cortassem o meu cabelo. Todos se negaram e alguns ainda queriam impor a possibilidade de fazer uma progressiva, isso iria me deixar mais bela. Neguei! Bati o pé e um belo dia esperei meus pais saírem de casa e corri ao banheiro. A insegurança era tão grande. Minhas mãos tremiam e aquela tesoura de cortar papel – igual criança – retirei as minhas partes lisas. Era uma mistura de choro e insegurança por ter medo de me achar bonita com o meu cabelo curto. Era um medo tão grande! Quando saí do banheiro com apenas 2 dedos de cabelo a minha mãe não parava de reclamava o quanto parecia um homem, meu pai dizia que poderia excluída da igreja e a minha irmã – ela estava de cabelo curto – foi quem me apoiou.

Dizer que cabelo crespo ou toda essa corrente de representatividade e empoderamento é um modismo é algo tão baixo. É ignorar todo o nosso processo de aceitação. É ignorar que não existem revistas – mesmo que tivessem essas não atentem ao público pobre negro/branco – que não existem figuras negras e mulheres que usem volumão. É ignorar que são poucas as mídias que dizem que nós somos belos. Quando recentemente Taís Araújo foi protagonista da novela e usou cabelo volumoso aquilo chamou atenção da comunidade negra. Ver Miss Brasil sendo negra após um intervalo de 30 anos é poder falar para as crianças: Tudo bem, não é errado sua cor, não é errado o seu cabelo, não é errado nada em você! Se ama vai criança. Representatividade importa e reflete muito em você. O empoderamento importa porque ele molda você e te faz compreender o seu valor.

Sobre o autor

Debora Queiroz
Debora Queiroz

Cristã-protestante, futura historiadora e saxofonista.

2 comentários

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  • Eu nunca precisei passar por uma transição porque nunca alisei meu cabelo de forma definitiva. Não era falta de vontade, era de grana mesmo.
    Quando eu era criança era feliz comigo mesma. Até que com 10 anos ouvi uma comentário de uma “amiguinha” que mudou a concepção que eu tinha de mim: “a Bruna é bonita, mas esse cabelo…”. Até então nunca tinha pensado muito nisso. Foi só início. Na adolescência as pessoas zombavam muito de mim (não só pelo cabelo, outras coisas também). Minha defesa era zombar de mim mesma também. Tive problemas de autoestima muito sérios – e olha que nasci branca, nariz fino, apesar do pai negro; meu cabelo é só cacheado e não faço ideia do que é sofrer preconceito pela cor da pele. Deve doer muito.
    Não houve um dia em que eu simplesmente disse “agora chega de chapinha”, mas houve uma mudança em mim depois que terminei o Ensino Médio. Um dia não tive tempo de fazer chapinha e elogiaram meu cabelo (oi?! minha cara foi no chão rs), disseram que eu deveria deixar o cabelo assim. Fui deixando, odiando no início, confesso, mas a sensação de liberdade, de entrar nas piscinas, de não correr das chuvas HAHHAAHA foi tão libertadora. Não sei quando foi, mas sei que um dia eu acordei e percebi o quanto eu amava o meu cabelo. É engraçado que se ver minhas fotos de antes, mesmo com ele cacheado eu tentava esconder o volume, hoje acho que meu cabelo é muito murcho shaushua queria aquele volumão, um super black power para causar por onde passo. Faça isso por mim, ok? haha
    Beijos

    • Bruna, gostaria de poder lhe dar um abraço. Os comentários sobre nossa aparência pesa muito sobre nós, não importa o que seja, se dizem que o temos não é suficiente ou não é bonito: PRONTO! Vamos nos colocar em frente de um espelho e querer mudar, mesmo que isso venha significar nos machucar. É MARAVILHOSO quando nos sentimos livres! Poder ser a gente! Aprender que não é errado é amor demais! Eu vou usar o black power com orgulho e você se ame muito! Cada cacho que nascer em você que venha ser recebido com amor, afinal é ele faz parte de você! <3

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