Turbilhão de Pensamentos

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Não existe meios de explicar a sensação que a incapacidade nos causa. Perceber que não somos capazes de realizar aquilo que nos é permitido e muitas vezes irmos além de nossa capacidade, demostra não apenas os empecilhos que surgem em nossa vida cotidiana, mas, perceber uma mão-invisível que se constrói a partir do nosso imaginário e venda nossos olhos. A palavra para definir essa situação é autossabotagem.

A primeira vez que ouvi que me autossabotava foi através de um amigo que me questionou: “É sério? Diz que você vem fingindo toda situação, não se assemelha nada com você esse medo”. Ouvir aquilo foi doloroso, mas o pior foi perceber que meus objetivos estavam próximos de minhas mãos e preferi fechar os olhos e fingir desorientação. “Desde quando havia tanto medo em mim?” Isto foi a primeira coisa que me questionei, mas internamente só conseguia me responder “Não sei dizer”.

É tão fácil ligar-se a pensamentos ruins. Pensar o pior de nós é muito mais automático do que elencar as qualidades. Parece que na primeira opção surge uma lista imensa de mercado e a segunda é um simples post-it colado na tela do computador que por um vento qualquer acaba sendo levado. A minha mente pouco a pouco só conseguia refletir o pior de mim. “Você não sabe ler”, “Aprende a se portar em locais públicos”, “Essa roupa não fica bem em você, não acha que é melhor emagrecer?”, “Quem vai se apaixonar por você?”, “Olha essas estrias em você”. Não sabia que existiam tantos defeitos em mim que a cada dia tornavam-se mais e mais visíveis. Se antes criava empecilhos que me afastavam dos meus objetivos me autossabotando, agora estava me desqualificando por completo, nem ao menos conseguia me denominar um ser humano, uma mulher.

“Quando me tornei assim?” Isto era algo que gostaria de descobrir. Nem sempre é fácil localizar o foco do problema e nesta busca implacável que surgiu, acabei me perdendo em inúmeros discursos que me tornaram em alguém insignificante. A minha existência parecia estar se diluindo através do meu isolamento. Pouco a pouco não estava mais querendo sair de casa e logo depois da minha cama. Passava o dia vendo vídeos de gatinhos. Existia os momentos de me levantar e cumprir as minhas obrigações, mas isto significava ter crise de ansiedade na universidade ou no ônibus. Tremer diante de uma turma inteira ao explicar um seminário ou faltar as aulas que deveria ministrar aos meus alunos. Não estava apenas me autossabotando, agora estava me isolando e criando um universo completamente paralelo.

O medo. A incapacidade. A irrelevância. A necessidade de viver. Tudo isso me atormentavam. Sentia-me deprimida e não havia ninguém para compreender ou dizer que aqueles turbilhões de pensamentos não eram culpa minha, porém, tudo o que me ofertavam eram apenas: “Você não quer levantar dessa cama porque é preguiçosa”, “Uma grande besteira da sua parte tremer em frente da turma, você fala muito bem!”, “Por que você desmaiou?”, “Não vem com baboseira de gastrite, isto é desculpa para não entregar os seus relatórios”, “Se sentir sozinha? Quem não se sente bem de vez enquanto, isto é drama de adolescente, larga disso!”.

Não havia mais minha mão na frente dos olhos, mas sim, um ponto escuro que parecia anunciar o meu fim, especialmente quando tudo dentro de mim parecia estar quebrado, esmiuçado ao ponto de não poder-me colar. O pior de tudo foi andar sobre os meus cacos e buscar outras pessoas para me curar. “Por que você fez isso” gritei comigo internamente. Se antes as feridas estavam abertas, agora pareciam sangrar. Estava com medo e sem qualquer coragem. “Para onde você vai?”. Corri por muito tempo em um lugar escuro e frio, agora estou cansada e tudo o que consigo dizer pra mim é “Tudo bem, você não vai mais fugir”.

Ao longo de 365 dias vivenciei muitos altos e baixos. Foi difícil para mim perceber que tudo se iniciou com a autossabotagem e prolongou-se para os medos interiores e exteriores. Criar uma cúpula de proteção acabou me afastando muita das pessoas e se sentir isolada acabou sendo o meu maior castigo. Por 365 dias não conseguia compreender o porque aquele turbilhão de pensamentos quicavam em minha cabeça e me fazia mal, mas agora compreendo, não totalmente a origem, mas os pequenos gatilhos. Estou buscando me reconstruir. Não vou me colar, mas sim, molhar o barro e me misturar novamente pra me moldar. Por isso, nesses próximos 365 dias talvez eu viva novamente meus altos e baixos, mas não quero estar sozinha.

“Você pode me ouvir?” é apenas isto que desejo sussurrar no ouvido de vocês.

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